Contos, Prediletos
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Adeus, Morfeu!

Deitada despida na cama. Assim jazia a mulher, desamparada sobre os lençóis baratos que ganhara da mãe quando decidiu mudar-se para outro buraco que não aquele no qual crescera. Ele a mirava.

Era quase obsceno pensar num homem a observar uma mulher nua em um quarto a meia-luz, sentado sobre uma poltrona velha e mal-ajambrada. Ele não estava nu, pelo contrário. Vestia-se muito bem e usava muita roupa para tal cena. Permanecia a estudá-la.

A pele era branca e queimada pelo sol diário. Havia curvas, havia pintas, havia pele desnuda. Os olhos estavam fechados, portanto, não importava-a o cabelo caindo sobre o rosto. Enamorava Morfeu placidamente. Ele se levantou e caminhou até a cama.

Sentou-se ao lado dela.

Perpassou a ponta dos dedos gélidos pela pele, que arrepiou-se com o toque, mas não a despertou. Afastou do rosto o cabelo, observou os cílios longos, a boca. Inclinou-se mais. Tocou a pele na base do pescoço com o nariz e aspirou o cheiro que dela emanava. Cheio de trabalho, cheiro de uma vida miserável. Misturas de produto de limpeza, gordura da chapa suja, suor e vergonha.

Levantou-se. Fechou os olhos brevemente antes de dar as costas para o corpo atrás dele. Caminhou sem pressa para a porta. Ela abriu os olhos, vendo-o deixá-la.

Imagem via Vladimir Agafonkin

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