Cartas
Comentário 1

Mateus

Diadema, 18 de Dezembro de 2015

Querido Mateus,

Talvez não se lembre de mim após tantos anos. Estudamos por dois anos na mesma classe, passávamos a ida e a volta da escola conversando no ônibus da tia Celina, dividíamos nossos palpites sobre as novelas da tarde. Muitas vezes a vida é dura demais para recordarmos daqueles que nos rodearam aos dez anos de idade, mas ainda assim, tenho esperanças de que se lembre de mim.

Você foi o segundo menino por quem eu me apaixonei. Não sei o por quê me apaixonei por você. Talvez porque era o garoto mais terrível da sala, porque tinha olhos bondosos, ou porque ter me apegado demais como amiga. Sempre tive certeza de que você sabia qual era a maneira que eu gostava de você, mesmo sem nunca ter confessado nada. Na época, compreendia que seus olhos eram de outra menina, muito mais bonita e extrovertida do que quem eu era. Apesar disso, nunca desejei me afastar ou brigar por você. Entendia e aceitava que não haveria nada: nenhum abraço prolongado ou mãos dadas. Como uma tola menina de dez anos, só almejava isso e que olhasse para mim do mesmo modo que olhava para aquela outra.

Nunca mais cheguei a sentir algo tão inocente e tenro como essa singela paixão de infância. Creio que nesse momento já consiga se recordar de como eu era quieta e com quão poucas crianças eu conseguia conversar. As coisas só se agravaram com o tempo.

Demorou muito tempo para algum garoto prestar atenção em mim, por vários motivos. Geralmente os garotos estão interessados em olhar para certos aspectos que não possuía, como você estava naquele tempo. Após você se mudar, eu desenvolvi uma apatia que se estendeu por quase uma década, que me levou a perder qualquer interesse em me relacionar com garotos. Na puberdade, preferia escutar música durante o dia inteiro do que pensar em beijos, baladas e sexo. De fato, fui uma adolescente bem estranha.

Sempre me lembro com carinho de quando brincávamos de polícia e ladrão (éramos subversivos que sempre odiávamos ser policiais, preferindo fugir como alucinados pela quadra), ou de quando trocávamos e batíamos as figurinhas de pokémon no corredor da escola.

Por um longo tempo fomos os únicos da classe que entendíamos as piadas cheias de duplo sentido que as professoras faziam e ríamos sem que as outras crianças conseguissem captar do que se tratava. Lembro-me que você se afastou por meses para fazer uma operação em suas partes íntimas e que, ao voltar para a escola, me contou com detalhes o que fizeram. Foi ai que começamos a falar de pêlos pubianos, de peitos balançando (você chamava de tetas!) e de quão nojento os homens e mulheres eram por fazer sexo – coisas que somente duas crianças bobas podem comentar.

Eu sinto saudades dessa inocência e da minha falta de percepção da realidade na infância. Um dia você me disse que ia para Tocantins. Em um piscar de olhos era seu último dia de aula. Eu posso me recordar de você dando estrelinha no meio da sala de aula e da leve tristeza que sentia dentro de mim, como um fantasma que não foi reconhecido. E então você se foi. Não houve busca em qualquer site da internet que conseguiu te trazer de volta, mesmo depois quatorze anos.

Minhas lembranças dessa época são cheias de neblinas e borrões. Porém, me lembro vividamente do pequeno Mateus e do sorriso sapeca que dispensava a mim sempre que nos despedíamos depois de longo dia de aula.

Onde quer que você viva hoje, apenas desejo de todo o coração que esteja feliz.

Com carinho,

Cristina

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1 comentário

  1. gisasantanna diz

    ai gente….
    Precisava frisar que passei por aqui. Mas o que dizer? também tive alguns amores parecidos com esse. Um, talvez, o maior deles. Mas talvez, hoje, preferisse que ele tivesse ido pra longe. A memória dele seria bem melhor que a sua presença.

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